Edição de 13 de junho de 2026
Segurar a inflação hoje, empurrar o rombo para depois
A cerca de quatro meses do primeiro turno, o governo puxou todas as alavancas para segurar preços — subsídio ao diesel, tarifas de importação suspensas, socorro a setores e garantias a estados — e o Senado reabriu a renegociação das dívidas do agro com dinheiro do pré-sal. O objetivo é conter a inflação na largada da campanha; a conta é o déficit, que fica para depois. Enquanto isso, algumas das maiores empresas do país passaram a semana em recuperação, à venda ou em liquidação.
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🟥 Segurando o preço — no subsídio, na tarifa e no crédito
O subsídio do diesel saiu do papel: R$ 1,12 por litro. O Decreto 12.995 regulamenta a subvenção econômica ao diesel rodoviário — o desdobramento concreto do mecanismo que, na semana passada, ainda era só promessa. É mais que o dobro dos R$ 0,44/litro fixados para a gasolina, vale desde 1º de junho e pode ser reajustado a cada dois meses pela Fazenda. Direto na inflação: combustível mais barato hoje, conta do Tesouro depois. A oposição reagiu rápido — já há um PDL para sustar o decreto (ainda apenas apresentado).
O antidumping que durou um parágrafo. O GECEX impôs, no mesmo ato, uma tarifa antidumping definitiva de até US$ 4.183/tonelada sobre o leite em pó da Argentina e do Uruguai — e, no parágrafo seguinte, suspendeu a cobrança "por interesse público", citando textualmente o impacto sobre os preços ao consumidor (Resolução GECEX 907). Fez o mesmo com fios de poliéster chineses. Ou seja: até a defesa comercial entrou no esforço de não deixar preço subir em ano eleitoral.
As companhias aéreas ganharam um pacote de ~R$ 6,5 bilhões. Em uma só semana, o governo abriu R$ 1 bilhão em crédito extraordinário para capital de giro das aéreas (MP 1.365) e o Comitê Gestor do FNAC autorizou até R$ 5,57 bilhões em empréstimos reembolsáveis ao setor (Resolução CG-FNAC nº 3) — até R$ 1,8 bilhão por grupo com mais de 5% do mercado. Dinheiro público sustentando a aviação comercial.
Em perspectiva: subsídio ao diesel, tarifa de importação suspensa e crédito a setores — alavancas diferentes, um só objetivo: segurar preços e setores a quatro meses da eleição. Nenhuma delas aparece como gasto direto no orçamento; todas pressionam o resultado fiscal por fora.
🏛️ No Congresso
O Senado aprovou a renegociação das dívidas do agro — por cima da Fazenda. Relatado por Renan Calheiros (MDB-AL), o PL 5122/2023 reabre a renegociação de dívidas rurais com juros subsidiados (3,5% ao ano no Pronaf, 5,5% no Pronamp, 7,5% nos demais), prazo de até 10 anos com 3 de carência e tetos de R$ 10 mi por produtor e R$ 50 mi por cooperativa. A fonte do dinheiro é o que chama atenção: o Fundo Social do pré-sal — recursos que a lei reserva sobretudo a educação e saúde — somado aos fundos constitucionais (FNO, FNE, FCO) e ao Funcafé. O próprio relator admitiu que o impasse com a equipe econômica da Fazenda nunca foi resolvido — e aprovou assim mesmo. Volta à Câmara.
A Câmara aprovou dois acordos de livre comércio do Mercosul. Em plenário (9/6), os deputados ratificaram os acordos do bloco com a EFTA — Suíça, Noruega, Islândia e Liechtenstein (PDL 570) — e com Singapura (PDL 571), o primeiro do Mercosul com uma economia asiática. Ambos seguem ao Senado. (Em paralelo, o Executivo apenas promulgou — formalidade final — um lote de acordos do bloco já aprovados anos atrás: diplomas de engenharia, indicações geográficas, cooperação policial de fronteira.)
Maioridade penal aos 16 avança um degrau. A Comissão de Constituição e Justiça da Câmara aprovou (por 44 votos a 18) a admissibilidade da PEC 32/2015, que reduz a maioridade civil e penal de 18 para 16 anos — abrindo caminho para que adolescentes respondam criminalmente como adultos. É só o primeiro passo (admissibilidade); a PEC ainda precisa de comissão especial e dois turnos no plenário. Mas, depois de uma década parada, voltou à pauta em ano eleitoral.
📈 Mercado em 30 segundos — o andar de cima se reorganiza
Raízen protocolou uma das maiores recuperações extrajudiciais da história: R$ 64,7 bilhões em créditos reestruturados, com adesão de 75% dos credores e o aporte de R$ 3,5 bi da Shell que noticiamos há duas semanas. A desalavancagem prometida passa de R$ 30 bi.
Braskem virou alvo de uma OPA por 100% das ações: a NSP Investimentos — ela própria em recuperação judicial — vendeu o controle ao fundo Shine I, que agora oferece debêntures da NSP aos minoritários.
Copasa: a Equatorial foi confirmada como investidora de referência e fica com ao menos 30% da estatal mineira de saneamento — o desfecho da privatização que, na semana passada, tinha Itaúsa e Aegea na disputa.
Cemig captou R$ 2 bilhões em debêntures, oferta ampliada em 33%. E a Oi prorrogou a suspensão de obrigações extraconcursais — caminhando para a liquidação ordenada de ativos.
🔎 Sob a lupa
A Caixa contratou R$ 530 milhões em marketing numa só semana. O maior banco público federal assinou dois contratos de R$ 265 milhões cada — com a Agência Valiant (nº 04915/2026) e com a Promova (nº 04506/2026) — para serviços de marketing promocional de alcance nacional e internacional, ambos por 12 meses. As contratações passaram por licitação; o que chama atenção é a soma e o calendário: R$ 530 milhões em publicidade do banco da loteria e do FGTS a quatro meses da eleição.
Nunes Marques anula condenação a dois jornalistas. Em decisão monocrática (DJe de 11/6), o ministro do STF derrubou a condenação que obrigava dois jornalistas a indenizar uma magistrada por danos morais. A reportagem apontava um vínculo econômico entre a juíza e uma empresa beneficiada em processo que ela mesma julgou; para o ministro, relatar fatos objetivos, sem imputar crime, está protegido pela liberdade de imprensa (ADPF 130). A decisão ainda comporta recurso.
🔍 Lemos tudo — até isto
O contrato que confundiu mês com ano. A Procuradoria da República no Rio de Janeiro publicou o extrato do contrato 06/2026 de copeiragem (serviços de copa, com a Vinil Gestão e Facilities) com valor anual de R$ 100.747,44 — e, no dia seguinte, uma retificação elevou o número para R$ 1.208.969,28. A diferença é exatamente doze vezes: o que saiu como valor anual era, na verdade, o mensal. Um deslize que só se conserta com aviso no Diário Oficial.
R$ 49 milhões — faltando 16 centavos. O consórcio dos 29 municípios do Circuito das Águas, no sul de Minas, homologou uma ata de registro de preços de R$ 48.999.999,84 para serviços de tecnologia da informação — aplicativos municipais, modernização de sistemas legados, site institucional e uma "plataforma de inteligência analítica" — com a QODESEVEN Technology, empresa de Santana de Parnaíba (SP). O total parou exatamente 16 centavos abaixo da marca redonda de R$ 49 milhões. Fica o registro.
Bilhões que não fecham em conta redonda. Uma portaria de autorização da SUSEP (o órgão que fiscaliza os seguros) traz, entre seus valores, R$ 1.899.999.998,34 — R$ 1,66 abaixo de R$ 1,9 bilhão — e, na sequência, R$ 400.000.000,86. Valores na casa do bilhão definidos até o último centavo, sem qualquer arredondamento.
Um sinal trocado entre tirar e dar. Uma retificação da Secretaria de Fomento e Incentivo à Cultura (a da Lei Rouanet) inverteu o sinal de um valor no projeto Um Troco no Destino (Pronac 2411955): onde se lia redução de R$ 69.762,55, passou a se ler complementação de R$ 69.762,55. A troca de um sinal transformou um corte em um repasse de quase R$ 70 mil ao projeto — o destino, afinal, deu o troco.
📚 Oportunidades & editais
IBGE: 7.238 vagas abertas para o Censo Agropecuário, Florestal e Aquícola — recenseadores e supervisores em todo o país.
📋 Consultas públicas abertas (sua chance de opinar)
Conta de luz: a ANEEL abriu consulta sobre um encargo fixo nas tarifas de baixa tensão — a parcela que você pagaria independentemente do consumo. Contribuições de 8/6 a 8/9.
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