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AnáliseFiscal

O aval de R$ 24 bilhões: quanto a União já garantiu em dívida de estados, municípios e estatais estaduais em 2026

Em 102 despachos publicados no Diário Oficial até 11 de julho, o Ministério da Fazenda autorizou garantias da União que lastreiam ao menos R$ 28 bilhões em operações de crédito. O Atlas somou o fluxo, abriu para que serve o dinheiro, quem empresta — e foi atrás do que acontece quando o ente não paga.

Por Redação Atlas Público · 12 de julho de 2026 · 10 min de leitura

Dados até 11 de julho de 2026 — os números desta análise descrevem esse recorte e não são atualizados em tempo real.

Na quarta-feira, 8 de julho, uma única edição do Diário Oficial da União trouxe 23 despachos do Ministério da Fazenda autorizando garantias da União a operações de crédito — mais do que janeiro, fevereiro e junho somados. A anatomia daquele dia resume o sistema inteiro: um único aval gigante a Pernambuco, de R$ 1,75 bilhão, respondeu por 61% do valor do dia; ao redor dele, uma cauda de dezessete empréstimos municipais de R$ 20 milhões a R$ 65 milhões, além de duas operações externas do Piauí — uma delas em ienes japoneses.

No acumulado de 2026, até 11 de julho, foram 102 despachos, lastreando ao menos R$ 28,2 bilhões em operações de crédito — cerca de R$ 24 bilhões de estados, municípios e estatais estaduais. Cada aval saiu publicado, um a um, e alguns viraram notícia isolada. A cobertura, porém, tratou os avais um a um; faltava a soma — e, mais que a soma, faltava abrir o que ela contém: para que serve esse dinheiro, quem o empresta, e quem paga a conta quando o devedor falha. Fomos atrás das três respostas.

102

despachos de garantia da União em 2026

até 11 de julho

R$ 28,2 bi

em operações de crédito lastreadas

soma-piso: operações em moeda estrangeira ficam fora

R$ 336,7 bi

estoque de dívida já garantida pela União

fim de 2025 — Tesouro Nacional (RQG)

O que é o aval — e por que todo mundo quer um

Quem toma o empréstimo é o estado ou o município. A União não desembolsa nada: ela avaliza. Se o ente não pagar, o Tesouro paga o credor no lugar dele — e, para se proteger, exige na assinatura uma contragarantia de valor igual ou superior: o ente outorga à União, antecipadamente, o poder de reter suas receitas e transferências constitucionais (FPE, FPM) para se ressarcir. É a Lei de Responsabilidade Fiscal, artigo 40: garantia só com contragarantia e com o tomador adimplente com a União.

O filtro de entrada é a Capag, a nota de capacidade de pagamento que o Tesouro calcula com três indicadores (endividamento, poupança corrente e liquidez): só entes com nota A ou B podem receber o aval. Operações externas passam ainda pela Cofiex, pela análise jurídica da PGFN e pela autorização do Senado, a quem a Constituição (art. 52) reserva a palavra final sobre limites e condições das garantias da União.

E por que os entes querem tanto? Porque o aval rebaixa o custo. Com a União no contrato, estados e municípios acessam organismos multilaterais (Banco Mundial, BID, NDB) e crédito bancário a taxas próximas das soberanas — condições que, sozinhos, não teriam. É um subsídio implícito, legal e desenhado para ser ganho por disciplina fiscal: a régua Capag é o pedágio.

O ledger de 2026

Os estados dominam: R$ 18,26 bilhões em 28 atos — 78% do total tomado por estados e municípios, com menos da metade dos atos. As prefeituras somam R$ 5,27 bilhões em 60 atos; as estatais estaduais de saneamento (Embasa/BA e Sanesul/MS), cerca de R$ 0,9 bilhão. O maior aval individual deste levantamento é o da Eletronuclear, estatal federal: R$ 3,8 bilhões em um único ato — um quarto termo aditivo de uma operação de 2018 ligada a Angra 3. Detalhe que só aparece lendo a lei: como a Eletronuclear é controlada pela própria União, a LRF dispensa a contragarantia — é o único caso do ano em que o Tesouro avaliza sem rede.

Estados tomam 3,5 vezes mais que os municípios — com metade dos atos

Valor lastreado por tipo de tomador, em R$ bilhões · 2026 até 11 de julho

Ver dados em tabela
TomadorValor
EstadosR$ 18,26 bi · 28 atos
MunicípiosR$ 5,27 bi · 60 atos
Eletronuclear (federal)R$ 3,80 bi · 1 ato
Estatais estaduais≈ R$ 0,90 bi · 10 atos

Fonte: Atlas Público, a partir das publicações oficiais estruturadas.

E esse total é um piso: dez dos 102 atos são operações em moeda estrangeira sem valor em reais publicado. A lista revela um circuito paralelo pouco visível: o Piauí captou 58 bilhões de ienes (cerca de R$ 1,8 bilhão) com o Banco Mundial para reestruturar dívida, e mais €39 milhões com a agência francesa AFD; o Ceará levantou €100 milhões com o FIDA, agência da ONU, e com o instituto de crédito oficial da Espanha para o Projeto Paulo Freire II, de combate à fome e à pobreza rural; Mato Grosso do Sul, US$ 200 milhões com o BIRD; e Aparecida de Goiânia (GO) tomou US$ 80 milhões com o banco dos BRICS, o NDB.

O ritmo mensal é de picos: março concentrou R$ 11,5 bilhões — 69% disso em apenas três tíquetes (Eletronuclear R$ 3,8 bi, Ceará R$ 2,46 bi, Tocantins R$ 1,7 bi) — e julho reacelera puxado pela edição de 8 de julho.

Março concentrou R$ 11,5 bilhões — e julho voltou a acelerar

Valor lastreado por garantias da União por mês, em R$ bilhões · 2026 (*julho até o dia 11)

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MêsR$ bilhões
jan0,95
fev1,14
mar11,47
abr5,28
mai5,13
jun1,39
jul*2,86

Fonte: Atlas Público, a partir das publicações oficiais estruturadas.

Para que vai o dinheiro

Lendo os resumos dos 93 atos com valor, classificamos a finalidade declarada de cada operação. O retrato:

  • Infraestrutura e mobilidade — R$ 7,3 bi (11 atos): os grandes projetos urbanos. São Paulo (R$ 2,57 bi, mobilidade), Ceará (R$ 2,46 bi, infraestrutura), Ribeirão Preto (R$ 1,09 bi, sistema viário).
  • “Despesas de capital” genéricas — R$ 7,2 bi (32 atos): o varejo dos programas de prateleira (Programa Eficiência Municipal, Finisa, Plano de Promoção do Equilíbrio Fiscal, Novo PAC), majoritariamente empréstimos municipais padronizados.
  • Reorganização de dívida velha — R$ 4,2 bi (4 atos): aqui mora um achado. A Bahia tomou R$ 2 bilhões, com aval da União, para pagar precatórios; o Tocantins, R$ 1,7 bilhão numa operação que combina amortização de dívida antiga e despesas de capital; o Piauí, duas operações de reestruturação. É crédito novo garantido para carregar passivo velho — permitido pela regra, e revelador de onde aperta o sapato fiscal.
  • Angra 3 — R$ 3,8 bi (1 ato): a Eletronuclear.
  • Desenvolvimento e clima — R$ 1,6 bi (5 atos): o nicho do BNDES entre os despachos do ano, concentrado no Espírito Santo e no Ceará (este via Novo Fundo Clima).
  • Saneamento — R$ 1,5 bi (15 atos): a Embasa, a Sanesul e operações municipais de água, quase todas via Caixa/Finisa.
  • Sem identificação — R$ 1,4 bi (15 atos): atos cujo resumo publicado corta a finalidade. Transparência tem esse limite: às vezes o próprio Diário não diz para quê.

Um quarto do dinheiro garante obra urbana; R$ 4,2 bi reempacotam dívida velha

Valor lastreado por finalidade declarada no ato, em R$ bilhões · 2026 até 11 de julho · classificação Atlas sobre os resumos publicados

Ver dados em tabela
FinalidadeValor
Infraestrutura e mobilidadeR$ 7,3 bi · 11 atos
Despesas de capital (programas)R$ 7,2 bi · 32 atos
Reorganização de dívidaR$ 4,2 bi · 4 atos
Angra 3 (Eletronuclear)R$ 3,8 bi · 1 ato
Desenvolvimento e clima (BNDES)R$ 1,6 bi · 5 atos
SaneamentoR$ 1,5 bi · 15 atos
Sem identificação no atoR$ 1,4 bi · 15 atos

Fonte: Atlas Público — classificação da finalidade declarada nos resumos dos atos (93 atos com valor; 15 sem identificação por corte no texto-fonte).

Dois balcões: o BB dos estados, a Caixa dos municípios

O crédito garantido corre quase todo por dois bancos públicos federais — mas eles não disputam o mesmo cliente. O Banco do Brasil é o balcão dos estados: seus 10 atos estaduais somam R$ 12,8 bilhões, 70% de todo o crédito estadual garantido do ano (Pernambuco, Ceará, Tocantins, Bahia, Mato Grosso do Sul, Amapá...). A Caixa é a operária dos municípios: 49 atos, sendo 35 municipais e 11 de estatais de saneamento, no varejo dos R$ 20-65 milhões. O BNDES concentra-se nos estados, com perfil desenvolvimento/clima — e aparece ainda em ao menos uma operação municipal, os ônibus de Salvador (R$ 264 milhões), formalizada em contrato de garantia publicado à parte dos despachos contados aqui. Bancos privados entram apenas nos maiores tíquetes, em sindicato — Itaú, Santander e Bradesco dividiram os R$ 2 bilhões dos precatórios baianos e os R$ 847 milhões de Alagoas.

Na prática, é o Estado brasileiro em três papéis ao mesmo tempo: o ente toma, o banco federal empresta, o Tesouro avaliza. O risco roda em círculo dentro do setor público — padrão que já vimos, em outra escala, nos contratos entre estatais.

O varejo municipal tem um sotaque

Os 60 atos municipais escondem dois brasis. O valor concentra em São Paulo: R$ 1,64 bilhão (31% do total municipal), com Ribeirão Preto respondendo sozinho por R$ 1,09 bilhão e São José do Rio Preto por R$ 477 milhões. Mas a contagem é sulista: Rio Grande do Sul (14 atos), Santa Catarina (8) e Paraná (6) somam quase metade dos atos municipais — e só 19% do valor. São os empréstimos-padrão de R$ 20 milhões dos programas de eficiência municipal, o piso que se repete ato após ato (a mediana municipal do ano é R$ 25 milhões). Na cauda há achados como Querência (MT), 13 mil habitantes, com R$ 32 milhões garantidos para uma usina solar.

O ranking por estado

Entre os governos estaduais, considerando os atos com valor em reais publicado, a fila de 2026 tem dono — e cada posição tem uma história: metade do valor da Bahia é o crédito sindicalizado para precatórios; o Ceará combina infraestrutura pesada e Fundo Clima (e ainda soma, fora deste ranking, cerca de R$ 620 milhões numa operação de recursos hídricos com o BNDES formalizada em contrato à parte); São Paulo é um único ato de mobilidade; o Tocantins combina amortização de dívida e investimento; e o Espírito Santo tem o perfil mais distinto do país — seus quatro atos são todos via BNDES, em operações de resiliência e desenvolvimento.

A Bahia lidera com folga: R$ 4,6 bilhões em quatro avais

Garantias da União a governos estaduais autorizadas por despacho da Fazenda, em R$ bilhões · 2026 até 11 de julho

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EstadoValor
BahiaR$ 4,60 bi · 4 atos
CearáR$ 2,66 bi · 2 atos
São PauloR$ 2,57 bi · 1 ato
PernambucoR$ 1,75 bi · 1 ato
TocantinsR$ 1,70 bi · 1 ato
Espírito SantoR$ 1,39 bi · 4 atos

Fonte: Atlas Público, a partir das publicações oficiais estruturadas.

Uma ausência salta aos olhos: o Piauí, cujo empréstimo de R$ 1,8 bilhão com o Banco Mundial recebeu aval nesta semana, fica fora do ranking porque a operação é em ienes e não tem conversão publicada no ato — com ela, o estado entraria na quarta posição.

O que acontece quando dá errado

Aqui a história ganha o seu segundo andar. O aval não é uma formalidade: a União já foi chamada a honrar dívida alheia — muito.

Segundo o Tesouro Nacional, desde 2016 a União pagou cerca de R$ 86,5 bilhões em garantias honradas de estados e municípios inadimplentes. Nos últimos três anos, o fluxo rodou entre R$ 11 bilhões e R$ 12,3 bilhões por ano (2022 ficou um pouco abaixo, em R$ 9,8 bilhões). A concentração é esmagadora: o Rio de Janeiro responde por 52% do acumulado e Minas Gerais por 27% — estados dos regimes de socorro fiscal.

A União paga mais de R$ 11 bilhões por ano em dívida garantida que os estados não honraram

Garantias honradas pela União por ano, em R$ bilhões · Rio de Janeiro e Minas Gerais concentram ~80% do acumulado

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AnoHonras
2022R$ 9,78 bi
2023R$ 12,29 bi
2024R$ 11,45 bi
2025R$ 11,08 bi

Fonte: Tesouro Nacional — Relatório Mensal de Garantias Honradas (abr/2025) e consolidado 2025 (RQG 3º quadrimestre/2025).

E a contragarantia — a tal rede de proteção que justifica o aval? Na prática, ela quase não funcionou: dos valores honrados até abril de 2025, a União havia recuperado só cerca de 7%. O motivo é jurídico-institucional: os grandes devedores estão (ou estavam) no Regime de Recuperação Fiscal, que suspende a execução das contragarantias; outros obtiveram liminares no STF travando a retenção do FPE — casos como o do Maranhão e, mais recentemente, o do Rio Grande do Norte, este ainda em disputa em 2026. O desenho legal prevê o bloqueio automático das transferências; a realidade federativa o negocia caso a caso.

Duas honestidades se impõem. Primeiro: essas honras vêm, sobretudo, de dívidas antigas de estados em crise — não das operações novas de 2026, que passaram pela régua Capag justamente criada em resposta a essa história. Segundo, o contexto muda neste exato momento: a LC 212/2025 (Propag) reabriu a renegociação das dívidas estaduais (juros de IPCA+0% a 2%, contra IPCA+4% do regime anterior), Minas Gerais saiu do RRF em dezembro, e o Rio de Janeiro opera sob uma liminar-ponte até meados de 2026. O estoque antigo está sendo reempacotado ao mesmo tempo em que o fluxo novo — os R$ 28 bilhões deste ano — segue sendo assinado.

É muito? A régua disponível

Nosso corpus estruturado começa em novembro de 2025, então a comparação com anos anteriores não pode vir dele. Mas há réguas oficiais. O estoque de dívida garantida pela União fechou 2025 em R$ 336,7 bilhões (68,6% de estados) — os avais de 2026 adicionam algo como 8% a esse estoque em pouco mais de seis meses. E o fluxo: a Instituição Fiscal Independente do Senado calculou R$ 27,8 bilhões em garantias concedidas a operações internas de estados e municípios no ano cheio de 2023 — que havia sido um salto de 271% sobre 2022. Os nossos R$ 24 bilhões subnacionais em seis meses e meio de 2026 são medição diferente, de fonte diferente — mas a ordem de grandeza diz o essencial: o ritmo de 2026 corre à altura do maior ano recente.

O calendário importa

2026 é ano de eleição para todos os governos estaduais, em outubro. Os despachos se aceleraram em março e voltaram a se concentrar em julho. É uma observação de calendário, não de intenção: a concessão do aval é um processo técnico, condicionado à Capag e, nas operações externas, à autorização prévia do Senado — que seguiu ativo no tema, como mostra o requerimento de urgência para operações de crédito externo de estados e municípios em tramitação. Mas o efeito distributivo é objetivo: governos com nota fiscal boa chegam ao segundo semestre com projetos lastreados em crédito barato — e os com nota ruim, não. O aval da União é, também, um mapa de quem tem folga fiscal no Brasil de 2026.

Como fizemos a conta

O Atlas estrutura diariamente os atos publicados no Diário Oficial da União. Este levantamento soma os despachos do Ministério da Fazenda de 1º de janeiro a 11 de julho de 2026 que autorizam garantia e contragarantia da União a operações de crédito, considerando o maior valor publicado por ato. A classificação de finalidade foi feita sobre o resumo publicado de cada ato (15 atos, R$ 1,4 bi, ficam sem categoria por corte no texto-fonte). Operações em moeda estrangeira entram na contagem, não na soma. O universo são os despachos autorizativos da Fazenda: contratos de garantia publicados apenas como extrato (caso dos ônibus de Salvador com o BNDES, R$ 264 milhões, e de uma operação hídrica do Ceará, R$ 623 milhões) adicionam valor além do contado — duas razões pelas quais os totais são um piso.

Os dados de estoque garantido, garantias honradas, recuperação de contragarantias e Capag vêm dos relatórios oficiais do Tesouro Nacional (Relatório Quadrimestral de Operações de Crédito Garantidas, 3º quadrimestre de 2025; Relatório Mensal de Garantias Honradas, abril de 2025); o fluxo de 2023 vem da Instituição Fiscal Independente do Senado (RAF 86) e não é diretamente comparável à nossa medição — tratamos como ordem de grandeza. Não afirmamos causalidade eleitoral: descrevemos calendário e desenho institucional.

Análise da Redação Atlas Público, produzida a partir das bases de publicações oficiais que o Atlas monitora (Diário Oficial da União, diários estaduais, CVM, STF, TCU, PNCP e outras). Todos os números são conferidos contra o corpus antes da publicação; atos administrativos regulares não são tratados como irregularidade.

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